A educação não é um circo, mas...
Por Carlos Santomor   
14-Mar-2010

educaco_no__circo250.pngO autismo de que fomos todos alvo na última legislatura, parece que afinal se propagou pelo país, de tal forma, que ainda há gente que não consegue resistir adoptando-o como regra, na maior parte dos casos, numa tentativa de proteger  a sua própria incompetência.

Exactamente porque a educação não é um circo,  interrogamo-nos  sobre a honestidade  dessa gente que anda pela vida, ocupando cargos com serias responsabilidades no amanhã dos futuros homens e mulheres deste país e que demonstra  a mais completa irresponsabilidade, a começar pela evidente incapacidade, para avaliar as diversas situações do  seu dia a dia profissional.

Alunos que se suicidam, porque são reiteradamente vítimas de agressões por parte de colegas na escola onde deveriam aprender a conviver em comunidade, professores que põem fim à vida por já não terem na sua perspectiva, condições para continuar a leccionar, empurrados pelo medo e aterrorizados com o seu próprio futuro.

Falamos de casos mais do que avisados, denunciados, sistematicamente informados, alguns do conhecimento dos responsáveis maiores da educação, sem que haja quem seja capaz de levantar a burra da cadeira e ir ao terreno a ver o que se passa, preferindo, fazer orelhas moucas, continuar a gravitar no conforto do passa ao lado, até que as tragédias acontecem,  sem que tenha sido feito o mínimo esforço para as evitar.

Desde conselhos directivos que se limitam a deixar correr o tempo, talvez na expectativa de que o milagre aconteça, até directores regionais de educação que informados que alguns professores das suas escolas chegaram ao limite, preferindo  coagi-los ao silêncio, já temos de tudo um pouco e este país continua a assistir impávido e sereno, a um filme cujas repercussões, já aí estão, nas tragédias dadas à estampa e que nem sequer são inéditas.

Já é tempo de acabar com a impunidade e fazer assumir responsabilidades a quem as tem, a quem é pago para desempenhar funções de chefia,  não lhe dando sequer a oportunidade para procurar enrolar, mover cordas e cordéis que lhes permitam escamotear as suas própria incompetência  para saírem ilesos de situações que poderiam ter evitado, se tivessem actuado logo ao primeiro alerta.

Só que desgraçadamente continuamos a ter um país, onde todos os elos da cadeia se tapam entre si, protegendo-se mutuamente,  baralhando e aumentando a confusão, apenas para evitar que lhes toque o dedo do "diabo".

O que é que vai acontecer à directora da escola que tinha conhecimento das situações complicadas que o professor em causa enfrentava, sendo inclusivamente detentora de uma carta de alerta que preferiu esconder na gaveta dos segredos?

O que é que vai acontecer ao director regional de educação que sendo conhecedor dos problemas do professor, preferiu chamá-lo ao seu gabinete apenas para o coagir ao silêncio, sem sequer se dar ao trabalho de tentar encontrar uma solução?

O que é que acontece aos responsáveis pelos conselhos directivos, cujos alunos são barbaramente agredidos, mal tratados e aterrorizados no seu dia a dia escolar, sem que haja quem adopte medidas e ponha termo ao seu sofrimento?

Afinal temos uma ministra da educação para quê? Qual é o papel dos actuais responsáveis pelas escolas portuguesas? Onde é que está o sentido de honra profissional, o respeito pela essência de uma das profissões mais nobres, que é ensinar, dar exemplos, preparar os jovens de hoje para que sejam homens e mulheres íntegros, no amanhã?

A educação não é um circo, mas... parece ser uma área onde a incompetência é gratificada ao nível das chefias, onde os inaptos são sucessivamente reconduzidos,  as responsabilidades continuam a ser transferidas para terceiros, sem perceberem que estão a transformar as escolas portuguesas em zonas de perigo, com consequências mais do que previsíveis e sem que os actuais senhores doutores, sejam capazes de se darem ao trabalho de repensar o seu próprio papel, enquanto responsáveis pela formação da massa crítica com destino ao futuro deste país.

Carlos Santomor

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